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O ATASH e o contexto interdisciplinar na VI Jornada Científica do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto

Parte da apresentação do serviço de psicologia da VI Jornada Científica do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, em que fui convidado para apresentar o ATASH:
“Agradeço o convite para participar da mesa e falar um pouco do ATASH, ambulatório especializado em sexualidade humana e que carinhosamente costumo chamar de “meu paraíso profissional”.
Nós, como membros do serviço e por posicionamento político em prol de parte tão extensamente marginalizada da sociedade, temos como conduta, sempre que possível, participar ativamente dos eventos aos quais somos convidados e aproveitar estes espaços para dar visibilidade às temáticas, muitas vezes, quase invisíveis.
O ATASH, Atendimento Ambulatorial em Sexualidade Humana, é um ambulatório ligado à residência médica em psiquiatria do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, funciona às quintas-feiras, de 13h às 17h e assiste os chamados “transtornos da sexualidade”, que compreendem as disfunções sexuais, os transtornos parafílicos ou da preferência sexual e disforia de gênero.
Foi criado em meados de 2009 pela Dra. Elza Dias e pelo Dr. Alexandre Aquino com o objetivo de introduzir o estudo da sexualidade humana na grade curricular da residência médica em psiquiatria. Temos, então, um módulo teórico, direcionado para o R2 e o atendimento ambulatorial, para o R3.

É confortável de se falar em contexto interdisciplinar no ATASH, dado a riqueza de referenciais e de visões que conversam semanalmente. A idealizadora do ambulatório, Dra. Elza Dias, é médica, especializada em sexualidade humana e psicodramatista. Conduzia, até 2014, um grupo psicoeducativo com pacientes transexuais. Tínhamos também o apoio da Dra. Débora Britto, que é médica ginecologista, especialista em sexualidade humana e atualmente faz formação em psicodrama. Também contávamos com o apoio do Dr. Marcelo Hissa, que é médico endocrinologista e nos dava suporte no que se refere à hormonização de pacientes transexuais. Atualmente, este apoio é dado pelo Dr. Carlos Bruno, médico endocrinologista, que presta esse suporte em seu consultório particular, dentro de suas possibilidades. Também contamos com o apoio da psicóloga Arlene Oliveira, que é psicodramatista e, diretamente ligados ao ambulatório, temos o Dr. Henrique Luz, que atualmente é preceptor em psiquiatria e psicanalista, e eu, que sou preceptor de estágios em psicologia e psicanalista.
Dentro deste período de quatro horas semanais, às vezes nos questionamos como, ainda temos outras atividades além dos atendimentos dos nossos pacientes: reservamos espaço para discussão de casos clínicos, filmes e/ou temas ligados à sexualidade, junto aos residentes e estagiários; temos atividade mensal com a participação da Dra. Elza, com objetivos e temas variados; reuniões mensais com os estagiários em psicologia da UFC, que acompanham as discussões dos casos acompanhados, reuniões burocráticas e outras possíveis reuniões que sejam solicitadas.

Desta forma, tanto pela riqueza de referenciais teóricos quanto pela própria postura e abertura do ambulatório, o modo de se fazer interdisciplinar é bem natural para nós.
Vale ressaltar que somos o único ambulatório no Estado a tratar questões relativas a gênero, o que faz a demanda de atendimentos por parte desta população ser imensa e muito além do que podemos dar conta. É de conhecimento de todos a marginalização que travestis e transexuais sofrem todos os dias pela sociedade e este quadro não é diferente no que se refere ao acesso desta população aos equipamentos de saúde e assistência da cidade e do estado, ou seja, ainda que tenham como arcar com o valor do atendimento particular (o que não ocorre em considerável parte dos casos), há poucos profissionais que têm preparo técnico e, às vezes, até sensibilidade para lidar com esta população em específico.
Tal fato nos coloca diante de uma desagradável situação em que há uma intensa demanda batendo à porta e que, infelizmente, não conseguimos acolhê-la pelas limitações do próprio serviço.

Há duas semanas, fomos convidados para uma reunião com a Defensoria Pública do Estado que nos questionou de que forma poderíamos colaborar enquanto serviço para auxiliá-los na demanda de seus usuários, que também têm aumentado consideravelmente. Na ocasião, tratamos, principalmente, da demanda jurídica, de saúde e de assistência de pessoas transgêneros.
No contexto de pessoas transgêneros, temos aqueles que demandam a retificação de registro civil, ou do nome registrado em cartório, e há aqueles que demandam a cirurgia de redesignação sexual, popularmente conhecida como “ cirurgia de mudança de sexo” (este termo, atualmente é inadequado). Para isto, de acordo com portaria do Ministério da Saúde, se faz necessário um laudo emitido por equipe multidisciplinar, composta por endocrinologistas, ginecologistas, urologistas, obstetras, cirurgiões plásticos, psicólogos, psiquiatras, além de enfermeiros e assistentes sociais, o que acaba limitando bastante nossas possibilidades de atuação, dado que não contamos com esta variedade de profissionais.
Além disto, por também trabalharmos no campo das disfunções sexuais, masculinas e femininas, a presença de profissionais de outras áreas como ginecologia, urologia, fisioterapia, dentre outras, também se fariam de extrema importância para o nosso serviço, dado que, por mais boa vontade que tenhamos e parceiros dispostos a nos ajudar, há um limite no suporte oferecido a estas pessoas, visto que as questões que passam para o lado dito “clínico” não podem ser atendidas por conta das próprias limitações estruturais que encontramos atualmente.
Há de se afirmar, no entanto, que já empreendemos esta luta, sempre que possível, a fim de tentar possibilitar a melhor assistência aos nossos pacientes, que, sabemos nós, vai para além da atenção em saúde mental.
Participar desta mesa nos traz grande satisfação pois sinaliza que esta luta passa a ser feita coletivamente. Estamos juntos: contem conosco para ocupar e conquistar espaços tão necessários. Estamos sempre à disposição. Muito obrigado.”

                       Corpo Clínico de Psicologos do Hospital junto à diretora Dra Magaly

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